sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ao querido escritor sem memória

Querido escritor,

Sinto que tenhamos nos conhecido em situação de tamanha fatalidade. Mas veja só como é a vida, certamente o desenrolar da sua daria pano pra manga para mais um dos seus romances, um tão bom, mas talvez mais triste, que a história de jagunços que o senhor comentou comigo hoje.
Eu lhe disse que compartilhamos o amor pela escrita. Veja, desde muito menina sinto a necessidade de registrar minha passagem pelo mundo. Talvez por ter me dado conta cedo demais da existência da morte, do efêmero da vida.
Se puder compartilhar com o senhor um pouco das minhas memórias antigas, já que o senhor anda esquecido dos recentes fatos, lhe conto sobre dois acontecimentos essenciais na formação de quem sou.
O primeiro data de aproximadamente 18 anos atrás, quando eu tinha por volta de 5 anos de idade, me lembro perfeitamente, o dia em que consegui juntar sílabas (tal como vinha aprendendo na escola) e elas formaram de repente uma palavra que eu, por meus próprios meios, fui capaz de compreender. A palavra era "estacionamento". Estava escrita num muro.
Eu me lembro com nitidez da emoção de ter aprendido a ler. Me pareceu que o mundo agora ganhava outras conotações, se tornava tão mais amplo, tão mais mágico. Dei pra ler absolutamente tudo que encontrava pela frente. A partir daí compreendi que me era dada a possibilidade de mais que observar, imaginar e materializar minhas criações.
O mundo, a partir de então, teria de dialogar comigo. Pois sim, eu aceitava de bom grado ingerir, mastigar e digerir todos aqueles sabores, doces e amargos, da realidade, eu permitiria que eles penetrassem minhas veias e - dizia ao mundo com certa altivez - garantia que faria o maior esforço para experienciá-los, tirar-lhes o máximo de proveito. Mas, a partir de agora existiria uma contrapartida. O mundo teria que acolher (ou pelo menos rejeitar) o material de minhas contribuições, e, a despeito de sua vontade, isso o modificaria também, em maior ou menor grau.
Eu tenho certeza que o senhor sabe tanto quanto eu que cada coisa escrita ganha vida própria, que as vezes as palavras mandam na gente, que ás vezes o imperativo de escrever abre com mãozinhas ansiosas o nosso peito e sai nos arrastando até uma caneta ou um teclado, sem que nada possamos fazer a respeito disso. Nos regojizamos de alegria, sorrimos porque o cativeiro das palavras nos liberta.
Ás vezes isso não ocorre, e a gente tem de sussurrar com voz manhosa e sedutora pra que as palavras venham nos resgatar, a gente pede, suplica, entre arranhões e carinhos que elas venham em nosso socorro, porque eu tenho certeza que o senhor sabe tanto quanto eu que não existe melhor remédio pra nenhum de nós dois.
Pois bem, meu amigo escritor, me foi dada por acaso, quase num tropeço, a habilidade de ler e escrever, e ela me fez esta Sofia que o senhor agora pode folhear.
Avancemos.
O segundo grande marco data de cerca de um ano após, com 6 anos de idade portanto, o momento em que perdi minha avó.
Dona Maria foi uma mulher duríssima com todos os seus filhos e netos, mas para mim ela foi dessas avózinhas que faziam biscoito e colocavam no colo, e tinha um cabelo branco enroladinho bom de passar os dedos.
Veja, meu amigo, no exato momento em que segurei sua mão fria, estendida pálida no caixão, me dei conta da existência concreta da morte, e que ela não falharia com nenhum de nós. Entendi que o destino de cada ser que pisou nesta terra já está selado desde o início, e apesar das diferentes nuances, apesar da variabilidade dos percursos, ele finda como findaram eternamente pra mim naquele momento os olhos carinhosos da minha avó.
Depois disso iniciei uma reflexão profunda sobre o que haveria, então, de fazer da minha vida. Nessa época eu era sempre a última criança a ser apanhada na escola. Nesses períodos de solidão meu diálogo interno se enchia de perguntas. "Eu vou morrer, e eu não sei o que há depois da morte, se a vida é finita como posso aproveitá-la melhor?". Era mais ou menos isso que eu pensava, numa linguagem mais infantil.
Desde muito cedo suspeito da inexistência da felicidade como algo pleno e constante. A conclusão que cheguei, logo nesse momento, é que haveria então, para mim, duas coisas a se fazer: viver a vida com o máximo de intensidade, dando tudo de mim para cada coisa que eu amasse, e tentar deixar para trás, no fim, um lugar melhor do que o que eu encontrei no dia em que minha mãe mostrou-me a luz através da força de seus músculos.
Esse segundo objetivo, lhe confesso, anda difícil de alcançar.
Mas creio que se não puder modificar intencionalmente o mundo, ao menos lhe inscrevo cortes mais ou menos aleatórios através das minhas histórias. O senhor também o faz.
E hoje é isso que quero lhe dizer.
Que tal como a minha, a existência do senhor está registrada e continua para além do senhor, em todos os seres (os de carne e osso e os de palavra) que o senhor foi capaz de criar.
Eu faço nesse momento o compromisso de guardá-lo em minha lembrança. Poderei revisitá-lo muitas vezes neste texto e em tudo que venha a escrever daqui em diante e que tenha se alterado por ter lhe conhecido.
Felizes de nós que conseguimos escrever páginas sólidas. Mas ainda que não o tivéssemos feito, cada pessoa que passa pela nossa vida é um livro que conta de um fragmento, de um relance da nossa passagem.
Não sei lhe dizer, querido amigo, o que há depois. Mas vaidosamente acredito que roubamos um pedaço de eternidade. E que bom, agora podemos compartilhá-lo entre nós.
Bom apetite.

sábado, 7 de outubro de 2017

Cravo e canela

Silêncio
No aqui e agora tudo se encontra
Você consegue ouvir o plic plic do tear do tempo?
Ouça
A malha do passado, tão viva em nossas rugas
Se borda dos detalhes do nosso presente
Nunca da maneira que desejávamos
Não sabemos onde findam nossos suspiros
Cronos, olho-a daqui
É uma avó com pézinhos cansados
E cada um de nós é um fio
- Tão mais entrelaçados do que suspeitávamos
Com olhos de anciã, ela nos conduz atenta
Suas mãos enrugadas, um óculos fundo de garrafas pendurado no nariz
Neste momento
Seguro firme a linha da minha vida
E sorrateira, sem que você note, agarro um fiapo da sua
Lhe faço um crochê colorido
Preencho os espaços de contos e histórias
Remendo planos, bordo carinhos
Finalizo com o ponto de arrepio dos seus dedos caminhando sobre a minha pele
Espere!
A avó me olha por cima dos óculos com uma expressão de advertência
Mais devagar
Encosto a mão no peito, tenho palpitações
Sinto medo da imprevisibilidade do que há mais adiante
Agarro os fios com tanta força que eles me cortam

Então a velhinha solta meus dedos carinhosamente um a um
Eu largo as nossas linhas, deixo que elas flutuem
E sigam sua dança sem tanta preocupação
Confio em nós, confio na senhora que nos conduz
Mas rogo baixinho para que ela seja generosa conosco
Fecho os olhos e sigo a marcação do tempo da canção

E para que não falte a pequena insubordinação tão própria de minha natureza
Me rebelo pontualmente contra o efêmero da vida
E eternizo a silhueta da lembrança
Registro aqui:
Uma folha de canela, um hálito de cravo
Traços que rapidamente ganham formas de gente nas mais variadas poses
Um cabelo ralo como de criança pequena
Muitos copos de café
Silêncio, meu bem
A experiência do amor nos exige atenção
Um tanto de riso e um ar de gravidade
Aquela câmera que eu queria ter nos olhos para registrar
A exata nuance da luz quando se perde na escuridão da sua pupila
Tenho-a nos dedos
Guardo você em palavra.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Naufrágios

Já se foram incontáveis badaladas do relógio noturno
De cima da torre no cume do mais alto monte
Diante do mais profundo abismo que há por essas bandas de cá
Desde que se instalou a tempestade em minha alma.
Há dias não para de chover por aqui.
Pequenos raios enchem de estática os fios do meu cabelo
E minha mente brande trovoadas.
A inundação alcança proporções catastróficas
Mundos inteiros soterrados por lama
E tudo flutua em torno de mim
E tudo naufraga em torno de mim
Nas ondas revoltas do meu pensamento.
Não há quem me resgate.
Redemoinhos enchem minha boca de água
E eu morro sufocada um pouco a cada dia
Logo em seguida se desatam os pontos que suturavam a ferida no peito
E jorra a cachoeira de lamentações
E quebram e queimam minhas frágeis resoluções
Tão facilmente dissolvidas
Pela guerra civil que se trava
Por detrás dos meus olhos.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Monstros marinhos e eldorados

Costumava ter dentro de mim planos tão bem traçados
Costumava saber o que vinha depois de cada passo
Cada mudança se sucedia de uma completa alteração de roteiro.
Hoje caminho sem enxergar o que há além da fronteira
Que se anuncia no horizonte mais próximo
Tal como em tempos idos, meu mundo me parece quadrado
Além-mar há um abismo
Águas caem infinitamente da beira da existência
Ou se perdem em redemoinhos que escorrem
Sempre para dentro do meu sentimento voraz.
Logo mais meu barco desbravador
Alcança o limite entre o universo
Com seus astros sempre a flutuar
Nas águas negras e calmas da imensidão estelar
E as minhas águas revoltas caindo para nunca mais
O que vai ser de mim?
Tal como os antigos navegadores, me lanço a aventura
E me alegro por não saber o que me aguarda
Se monstros marinhos ou eldorados
Algum país frondoso onde tudo cresce
O meu esteio é jamais ter âncora
O meu cais é nenhum cais
Nesse momento não resta nenhum grande laço com a terra
Sou só eu e meu barco
E nas páginas de um caderno todos os meus pertences
Alguns aprendizados, algumas boas lembranças
Algumas pessoas guardadas com carinho
Tudo o mais é a imensidão do que não se sabe
Essa teimosia de ir e continuar indo
Abro o peito e me deixo devorar
Pelos meus próprios segredos e os mistérios do mundo.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Silêncio

A primeira bofetada veio dolorida
Deixou a mandíbula rangendo
A pele latejando
Gosto de sangue na boca
Um zumbido no ouvido.
Na segunda fiquei ainda um pouco zonza
Desconcertada
Como se algo estivesse fora do lugar
Fui revisitada por meu fantasma particular
A forma etérea do que há tempos é só ausência.
Da terceira vez fiquei de pé.
A pele parecia de aço
Busquei no sentimento alguma lágrima
Mas não encontrei nada que me fizesse lamentar.
Existe um incômodo, não minto.
Mas, busquei invocar sua imagem
Para dizer umas palavras de despedida
E nenhuma me veio à mente. 
Talvez seja essa a razão de evitar tanto os pontos finais
Enchemos a lembrança de significados
Mas a verdade é que depois do fim não há nada
Só silêncio. 





Terra seca

Escrevo porque tomei minha dose diária de masoquismo
E agora esse gosto amargo parece espremer
Minhas glândulas salivares
Um nó nas amígdalas
Sucede a linha de metal que se prolonga da agulha
Que cutuca meu peito
Só sei escrever assim, quando tudo me parece desconfortável
E não há outra forma de caber no mundo.
Quando todas essas insatisfações se fazem interrogações
Que se cravam debaixo das minhas unhas
E a insuficiência marcada no meu corpo
Tão comum e pálido
Me dá arrepios
- Passo pela rua com o senho franzido
Alguém chama meu nome, tenho que me virar porque mais uma vez passei batido
"Que cara de preocupação!" Estou sempre dentro de mim
Percorro caminhos sem ver por onde ando
Procuro a mim mesma
Em algum lugar entre os fios de metal que compõe meu sentimento
E me perco na teia de minha própria urgência -
Talvez tenha me encontrado mas esteja inconformada com o que vejo
(Nada me amedronta mais
Que o momento em que tenha que parar
Essa correria incessante
Calar minhas lições sempre tão seguras de si
Fazer as contas de tudo o que fui até aqui
E talvez descobrir o débito que tenho com a menina de 6 anos com o rosto apoiado nas mãos).
Tenho vivido um dia depois do outro, e o limite entre eles fica cada vez mais turvo
Da janela do facebook tudo parece bem, as pessoas parecem felizes
A realização parece um fruto de fácil plantio
Que em toda terra cresce e que a natureza dá de bom grado a quem o saiba colher
Enquanto a árvore de minha vida seca e se encurva
Como, aliás, todas as outras árvores de minha casa.
Para não dizer que seja tudo infertilidade
Confesso a existência de uma única fruta
Escondida debaixo da terra, debaixo da minha pele
O pulsar único, a linha-guia da minha alma, a essência viva do meu sangue
Uma fruta vistosa e brilhante, de uma polpa ácida que corrói os dentes
Ou então, apodrecida na casca, mas contendo o néctar mais doce do mundo em seu interior
A depender de quem a come
Minha poesia.








terça-feira, 6 de junho de 2017

Alvo Revolucionário

Atravesso a rua de peito aberto
Morro de medo e ao mesmo tempo
Quero me lançar a todo corte
Esse ano o que mais ouvi é que sou uma mulher forte
De fato, nunca abri mão da minha voz
(Custasse o que custasse - e custou sempre muito caro)
Só recentemente entendi a violência que segue em meu encalço
A violência que desperto
Por não ocupar o lugar certo
Por jamais ter usado salto
(Que mulher teria pernas para assim se manter de pé num palanque?)
Salto pra mim é um pulo alto
Aquele que me desafio a dar a cada instante
Para atingir o alvo, alvo revolucionário.
Alva revolucionária
Alto, revolucionária!
Está traçado o meu calvário.
Reneguei todas as coisas que me eram destinadas
Não quis ser submissa ou educada
“Ela é uma pessoa difícil”.
Convenhamos, há que se ter na mão uma enxada
Para enfrentar todo terreno que se desbrava
Modifico o chão que piso.